Terça-feira, 30 de Janeiro de 2007

Mais... ALMADA ROSAnº3 (ParteIV)

Moções

Apresentadas na Assembleia Municipal

Jaime Rebelo

Há gente a quem a liberdade deve, e a quem todos nós devemos muito, mesmo sem termos consciência disso.

Trata-se de gente que ousou ir além do medo, do risco, sem temer pôr em causa a sua própria liberdade e mesmo a sua vida.

Gente com rasgo de alma, que seguiu denodadamente o seu sonho de liberdade.

Gente a quem nem o medo, nem a desconfiança toldaram a coragem e souberam sempre dizer NÃO, nunca abdicando dos seus princípios, nunca capitulando.

Foram eles, cada um com o seu contributo, que deram a uma Nação inteira, a capacidade de dizer livremente o SIM e o NÃO.

A todos devemos um tributo de gratidão e um louvor que nunca será tão grande quanto a sua coragem e sua confiança.

E é esse tributo de gratidão e de louvor que nos leva a apresentar aqui, hoje, uma proposta que reputamos da mais elementar justiça.

Trata-se, portanto, de reconhecer na figura de Jaime Rebelo, "o homem da boca cerrada", um daqueles que nenhuma ditadura conseguiu travar.

Jaime Rebelo, activo militante sindical, perseguido e torturado pela ditadura salazarista, lutador anti-fascista em Portugal e em Espanha, que cortou a língua com os seus próprios dentes, para evitar falar durante os torturantes interrogatórios da polícia política.

É na sequência deste acontecimento que, Jaime Cortesão escreve um dos seus belos poemas intitulado "Romance do homem da boca cerrada", do qual vou ler apenas um excerto, mas que vos distribui na integra, com o texto desta Moção:

"Algemas de aço nos pulsos,

Vá de insultos ao entrar,

Palavra puxa palavra,

Começaram de falar

- Quanto sabes, se/a a bem,

Seja a mal, hás-de contá-lo,

- Não sou traidor, nem perjuro;

Sou homem de fé: não falo!

- Fala: ou terás o degredo,

Ou morte a fio de espada,

- Mais vale morrer com honra,

Do que vida deshonrada!

- A ver se falas ou não,

Quando posto na tortura.

- Que importam duros tormentos,

Quando a vontade é mais dura?!

Geme o peso atado ao potro

Já tinha o corpo a sangrar,

Já tinha os membros torcidos

E os tormentos a apertar,

Então o Jaime Rebelo,

Louco de dor, a arquejar,

Juntou as últimas forças

Para não ter que falar»

- Antes que fale, emudeça! -

Pôs-se a gritar com voz rouca,

E, cerce, duma dentada,

Cortou a língua na boca.

Jaime Rebelo viveu a maior parte da sua vida em Cacilhas e deixou, em Almada uma parte da sua família que ainda hoje recorda com respeito e muito orgulho, a sua vida militante.

Resumindo a sua vida aventurosa, queremos destacar:

Juntamente com Francisco Rodrigues Franco, foi um dos dinamizadores da Associação de Classe dos Trabalhadores do Mar, que viria a ser conhecida por Casa dos Pescadores;

É na sequência da "greve dos 92 dias", em 1931 que é preso e torturado pela PIDE e se dá o episódio que o poema de Cortesão descreve;

Vítima de perseguições incessantes, emigra para Espanha, onde se junta às milícias da CNT(Confederação Operária Anarco-sindicalista) e aí comanda uma unidade que combateu na frente meridional e onde se torna notado pela coragem e nobreza de actos;

A vitória fascista em Espanha, leva-o a França onde é internado em campos de concentração, ditos de acolhimento, em situações de grande desumanidade;

Regressado a Portugal, em 1968 encontramo-lo no quadro de revisores do jornal A República.

Após o 25 de Abril e com a restituição da Casa dos Pescadores aos respectivos Sindicatos, Jaime Rebelo é convidado para presidir à primeira Assembleia Geral em liberdade, para a eleição dos novos órgãos sociais;

Participou na constituição da Cooperativa Editora A Batalha, e também aí foi revisor, a título gracioso, neste órgão da Confederação Geral do Trabalho;

Integrou o Movimento Libertário Português e esforçou-se para que "A Voz Anarquista", editado pelo Centro de Cultura Libertária de Almada, fosse uma realidade, coadjuvando o seu velho companheirode lutas, Francisco Quintal;

A Assembleia Municipal de Almada recomenda ao executivo camarário a atribuição do nome de Jaime Rebelo a uma rua de Almada, preferencialmente em Cacilhas, para que os homens de coragem possam ser lembrados e homenageados, como é próprio de sociedades livres e democráticas.

Odete Alexandre

António Roseiro

 

publicado por motssa às 11:30
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